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Do poder VIBRANTE, arrebatador e TRANSCENDENTE das artes e do patrimônio artístico a preservar e transmitir, Festival Forró Raiz, Lille, 09.2025


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Abstract

No âmbito do Festival Internacional de Forró em Lille (setembro de 2025), este artigo explora a candidatura do Forró — dança tradicional do Nordeste do Brasil — ao patrimônio imaterial mundial da UNESCO. Propõe uma reflexão sobre as artes (artes visuais, literatura, dança, música) enquanto patrimônio imaterial capaz de transcender o tempo e o espaço, essenciais para a alma, os seres humanos e toda a sociedade, ressaltando a importância de sua preservação, valorização e transmissão às gerações futuras.



Lille entre festa e cultura: as artes vivas abrindo-se ao Sublime

Imaginemos uma imersão no coração da essência da arte… como aquela a que você tem direito ao entrar no incrível espaço do Palais des Beaux-Arts, em frente à prefeitura de Lille.

Lille, capital da Flandres, rica em história, cultura, línguas e tradições. Lille, cidade universitária, vibrante e apaixonada por música, ópera, teatro, museus e espaços festivos. Como explica a revista Connaissance des Arts (edição especial), que destaca o carisma e a tradição festiva da região lilloise, festa e cultura rimam com tradição e também com uma certa libertação[1].

“Por sua virtude federadora, a festa possui uma verdadeira dimensão política… Assim, a cidade e toda a sua população são capazes de se mobilizar para expressar a identidade e a vitalidade da urbe. Ganhando o espaço público, essas festas são também a encarnação de um estado de espírito, de uma filosofia de vida ainda viva em toda a bacia cultural dos antigos Países Baixos, onde ainda se praticam as quermesses, as ducasses e as saídas de gigantes. Elas remetem a um patrimônio imaterial e a um modo de vida muito particular, marcador da identidade desse território, alimentado por valores preciosos como a diversidade e o senso de coletividade[2].”

Tradição e libertação, festa e cultura… tudo isso forja uma identidade pessoal, local e social que se sente ao caminhar pelas ruas do centro da cidade ou ao se imergir no patrimônio e nos espaços de festa e de cultura da capital flamenga.



O Palais des Beaux-Arts: memória e elevação

Dentro do Palais des Beaux-Arts, o patrimônio cultural é arrebatador. Vive-se ali um verdadeiro momento de contemplação e transformação, pessoal e social.

Foi em seu grande hall que ocorreu, logo na abertura do Festival, a assinatura do pedido de inscrição do Forró no patrimônio mundial da UNESCO. Como que para ancorar esse ato de resistência cultural na história de uma longa trajetória de valorização e visibilização do patrimônio artístico, sensível e eterno.

Construído no final do século XIX por Édouard Bérard e Fernand Delmas, esse majestoso museu afirma a potência de uma cidade em pleno crescimento industrial e promove os ideais republicanos de difusão e democratização do saber. Hoje, abriga uma das mais belas coleções europeias, da Antiguidade ao século XX, e continua a evoluir com a sociedade[3].

Contemplar essas coleções é viajar no tempo e no espaço, navegar entre épocas e talentos de pintores, escultores e artistas que, há séculos, criam beleza e inspiram a sociedade.

Fiquei profundamente emocionada ao encontrar os mestres flamengos: sua precisão, sua delicadeza, suas cores e jogos de luz e sombra… a paciência infinita. Naquele tempo, antes da fotografia e do digital, uma pintura era única, longa e lenta de se realizar, mas carregava perseverança e unicidade.


 “O pintor historiador é o único pintor da alma… só ele deve sentir e expressar esse entusiasmo, esse fogo divino que o faz conceber seus temas de maneira forte e sublime”, escreve Étienne La Font de Saint-Yenne em Connaissance des Arts (edição especial)[4].

Esse entusiasmo e essa força, eu os senti em várias telas.

Elas reaprendem ao olhar o poder da contemplação.



Traços poéticos

Dessa experiência surgiu, do fundo do meu coração, este eco poético:

Traços da história

Subir a memória ao longo do tempo

Ouvir o vento

Sentir a terra

Apreciar o tempo

Cada instante

Cada momento

Elevar-se…

tudo apreender como aprendizado de instantes de eternidade

Chiara Mari, 27.09.2025


O eterno no coração do efêmero

A arte não cessa de inspirar e de atravessar o tempo. O que vibra nessas obras não é apenas pigmento e forma, mas um ideal de beleza que continua a comover.

No primeiro andar do Palais, uma escultura sublime de François Pompon lembra essa vocação da arte: revelar um fragmento de eternidade no coração de nossas vidas mortais. O eterno no coração do efêmero.

 

Mais adiante, o negro profundo de Soulages me capturou por muito tempo:

“A cor já não é apenas o meio de pintar, mas se torna o próprio tema da pintura[5].”


A luz no coração das trevas. A ausência e a presença. Um grito que se obscurece, um renascimento que se anuncia. O encontro com o Sublime, esse choque estético que eleva a alma[6].


Creio firmemente que nossa sociedade e nossos contemporâneos precisam desse tipo de momento, precioso, único, inesperado e profundo, que dilata o tempo e o espaço. A sociedade inteira precisa de mais arte viva abrindo o canal para esse SUBLIME autêntico.


Do Sublime ao despertar das almas pelas artes vivas

Essa elevação reencontrei nos ateliês de dança e literatura do Festival. A cultura do Nordeste brasileiro, sagrada e eterna, irradiou.

Dois jovens dançarinos de Pernambuco, Karla Oliveira e Leneeton Oliveira, encarnaram essa força. Seus workshops de forró raiz, nutridos de frevo e maracatu, transmitiram muito mais que passos e ritmos: uma conexão com a terra, com os ancestrais, com o divino.

Pés na terraPés no chãoEscuta do interiorPercepção profunda do ser…

Cada gesto

Cada movimento

Uma consciência pessoal e coletiva para se ter

Dançar, viver, com mais consciência e amor...

Ser!

Homenagem de Chiara Mari a Karla e Leneeton Oliveira

 

Essa experiência nos convida a desacelerar, a honrar cada encontro, cada gesto, cada sopro, na arte e na vida cotidiana.

 

 

Arquitetura da alma

A filósofa Simone Weil escrevia que o objetivo último da humanidade era construir uma “arquitetura da alma”. Segundo ela, isso exige reencontrar e abraçar o mistério numa atitude de humildade e busca interior[7].

Ela também lembrava Platão e seu mito da caverna, Aristóteles e sua ideia de que a alma está em todas as coisas. Nesse caminho de reapropriação do tempo e da contemplação, a arte desempenha um papel-chave, transformando o indivíduo e, por consequência, a sociedade[8].

“Todos os bens terrenos, todas as belezas, todas as verdades são aspectos diferentes e parciais de um único bem que, apreendido de um ponto de vista justo e corretamente relacionado, constitui uma arquitetura. Essa arquitetura permite compreender o bem único e inatingível[9].”


Conclusão: uma centelha a transmitir

Assim, as artes vivas me parecem estar a serviço do Bem e da Verdade. Recolocá-las no centro de uma busca interior é fortalecer as almas e contribuir para uma sociedade mais consciente, justa e desperta.

Essa convicção ganhou corpo nos ateliês, nas danças, nas poesias compartilhadas. Uma poesia de cordel, nascida em colaboração com uma jovem de Bruxelas durante o festival, guarda o registro e testemunha:

Poesia aproxima, é vida

É partilha, conexão

Apaga a tristeza

Une os horizontes

E cria transformação

- Claire & Chiara Mari, Festival Internacional de Forró -


Uma chama nasceu. Uma centelha a proteger, preservar e transmitir às gerações futuras.

 

 

 

Bibliografia

  • Baldine Saint Girons, Le Sublime de l’antiquité à nos jours, Éditions L’Harmattan / outros trabalhos sobre o sublime e o ato estético.

  • Bernard Salignon, La puissance en art: Rythme et peinture, Eyrolles, Paris.

  • Connaissance des Arts – edição especial, Fêtes et célébrations flamandes, publicação do Groupe Les Echos, Paris, 2025.

  • Connaissance des Arts – edição especial, Palais des Beaux-Arts de Lille, Musée de l’Hospice de la Comtesse, publicação do Groupe Les Echos, Paris, 2025.

  • Longino, Do Sublime (On the Sublime), trad. A. Hervey, Les Belles Lettres, Paris. Johann Joachim Winckelmann, Histoire de l’art de l’antiquité, Flammarion, Paris.

  • Michel Guérin, Origine de la peinture: Sur Rembrandt, Cézanne et l’immémorial, Payot, Paris.

  • Sabina Moser, La fisica soprannaturale: Simone Weil e la scienza, In: https://paginatre.it/la-fisica-soprannaturale-di-simone-weil-intervista-a-sabina-moser/

  • Sabina Moser, La fisica soprannaturale: Simone Weil e la scienza, San Paolo Edizioni, 2011.


[1] « Connaissance des arts – hors série », « Fêtes et célébrations flamandes »,  publication du Groupe Les Echos, Paris, 2025.

[2] « Connaissance des arts – hors série », « Fêtes et célébrations flamandes »,  publication du Groupe Les Echos, Paris, 2025, p.3.

[3] « Connaissance des arts – hors série », « Fêtes et célébrations flamandes »,  publication du Groupe Les Echos, Paris, 2025, pp. 4-5.

[4] « Connaissance des arts – hors série », « Fêtes et célébrations flamandes »,  publication du Groupe Les Echos, Paris, 2025, p.41.

[5] « Connaissance des arts – hors série », « Fêtes et célébrations flamandes »,  publication du Groupe Les Echos, Paris, 2025.

[6] Longin, Du Sublime (On the Sublime), trad. A. Hervey, Les Belles Lettres, Paris. Johann Joachim Winckelmann, Histoire de l’art de l’antiquité, Flammarion, Paris.

[7] Sabina Moser, La fisica soprannaturale : Simone Weil e la scienza, In : https://paginatre.it/la-fisica-soprannaturale-di-simone-weil-intervista-a-sabina-moser/

[8] MOSER S., La fisica soprannaturale : Simone Weil e la scienza, San Paolo Edizioni, 2011.

[9] MOSER S., La fisica soprannaturale : Simone Weil e la scienza, San Paolo Edizioni, 2011, p. 154.

 
 
 

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